Celebrating Womanhood1

Dia da Mulher por um mundo menos machista

Lembro que estava passando em uma rua do centro de São Paulo, onde diversos homens se acomodavam em uma calçada após um dia de trabalho. Passei incólume. Nenhum olhar, nenhuma palavra, nenhuma gracinha. Lembrei na hora da revolta da minha namorada ao dizer que, por mais desarrumada que ande por aí, é sempre alvo de algum tipo de assédio.

Na minha cabeça de homem, isso deveria ser bom: “Caramba! Se uma mulher me provocar, vou me sentir praticamente um ator de Hollywood!”. Já perguntei em diversas ocasiões, para diversas mulheres, o que tanto as irrita nestas situações. Percebi que há diversas respostas, mas um consenso: incomoda. E, se incomoda, as boas maneiras me dizem que deve ser evitado. Eu não tenho como sentir o que uma mulher sente ao passear na rua, mas posso ter a empatia necessária para entender seu sofrimento (sim, a palavra é essa: sofrimento).

Lembro um mini documentário europeu onde uma mulher aparece planejando sua rota até o metrô para evitar áreas onde são mais assediadas. É um esforço que sintetiza bem como é difícil ser mulher em um mundo masculinizado. Homens oprimem mesmo quando não percebem (e mulheres se permitem a esta submissão por nem perceber quando ela ocorre). O “clima frio”, com o qual muitos homens tratam as mulheres, evidencia bem isso. Quando homens subestimam as opiniões e ideias de uma mulher (isso quando se permitem ouvir o que elas tem a dizer, uma vez que é comum elas serem cortadas por durante uma conversa sem sequer perceber isso), as estamos colocando em um patamar inferior de importância. Ou então, quantas vezes não chegamos para uma mulher e dizemos coisas como: “Mas isso que te preocupa/incomoda é besteira, coisa sem importância, deixa isso pra lá…”?

Infelizmente, opressores e oprimidas, muitas vezes, fazem isso sequer sem perceber. Mas a angústia, em algum momento, baterá a porta… da mulher, é claro.

É por estas e outras que, aos poucos, vou me tornando um pró-feminista. Digo aos poucos porque, muitas vezes, estou neste modo automático de tomar uma atitude machista sem nem perceber. Para sensibilizar o homem (principalmente nestes momentos) algumas mulheres tomam atitudes ríspidas e agressivas. Tanto quanto acho que ateus devem ter certa serenidade quando forem dialogar com crentes, feministas (mulheres, enfim) precisam entender que nem toda atitude machista é má-fé. A despeito disso, em muitos cenários, eu entendo que a “força” é necessária para martelar alguns conceitos ou como uma terapia de choque. A agressividade necessária de ativistas para combater propagandas machistas, por exemplo, é justificável. Deve ser algo rápido, certeiro, implacável.

Vejo o dia da mulher como uma data para lembrar um pouco mais de que devemos (homens) respeitar as mulheres. Não como seres frágeis e indefesos, mas como seres humanos que merecem o tratamento respeitoso e igualitário que, em teoria, já deveríamos despender a todos (e todas). E, talvez, lembrar que deveríamos sim sermos todos (um pouco?) feministas. Lembro da psicanalista Regina Navarro falando que, depois de conhecer todas as atrocidades cometidas pelo homem contra a mulher ao longo da história, é lamentável que nem todo homem moderno seja feminista. Se a escravidão institucionalizada acabou no século XIX, a servidão da mulher para com seu pai e marido permanecem até hoje em muitos “lares”.

Neste dia, então, vale pelo menos o reconhecimento do esforço das mulheres que nos ajudam ao longo da vida e das feministas e ativistas que tentam trazer mais equilíbrio a este mundo. Vale lembrar que precisamos de mais empatia, diálogo e paciência neste convívio. E você, homem, pode dar flores para uma mulher feminista, sim senhor: de carinho e respeito, isso sim, todos e todas gostam.

Compartilhar

  1. GuilhermeGuilherme03-15-2014

    Mto bom texto.
    O sentimento de impotência perante cantadas ofensivas, fazem as mulheres temerem principalmente alguma investida física, como um contato indesejado ou até mesmo estupro.
    Gosto muito dos seus textos, gostaria que fossem mais frequentes ;)

Leave a Reply