O fim do mundo que nunca chega
Este fim de ano está marcado pelo fim de um ciclo no calendário Maia. E o que vem depois de um ciclo? Outro ciclo. Só isso. Ainda assim, milhões de pessoas acreditam que alguma catástrofe vai acontecer simplesmente porque arrancaremos uma folhinha no calendário usado por um povo que nem existe mais.
Ainda assim, milhões creem que o fim é iminente. “Seja através das mãos de Deus, desastre natural ou evento político, qualquer que seja a razão, um em cada sete acredita que o fim do mundo está chegando“, disse Keren Gottfried, gerente de pesquisa do Ipsos Global Public Affairs, que realizou a pesquisa para a Reuters.
Mas seria o planeta assim tão vulnerável? Podemos sumir assim tão facilmente. A despeito dos exageros, vivemos numa sociedade frágil. A ausência de uma instituição qualquer, seja ela uma lei ou uma autoridade, pode ser o suficiente para desencadear eventos que levam ao caos.
No Canadá, país tão reconhecido como uma sociedade avançada, houve uma greve de apenas 16 horas da polícia de Montreal em 1969. Resultado? Mais de 100 lojas foram saqueadas, 6 bancos foram roubados, mais de 20 incêndios, mais de 3 milhões de dólares de prejuízo em depredações. Isso tudo em apenas 16 horas.
Alguns filmes e documentários (estes últimos, por vezes, demasiadamente sensacionalistas) desenham um cenário bem realista do que aconteceria em situações de total caos. Contudo, para que estes cenários sejam possíveis são necessárias uma série de acontecimentos. A não ser que você acredite em alguma divindade “bondosa” que trará consigo o apocalipse e destruirá a Terra. Neste caso, um único evento bastaria para aniquilar tudo o que tiver por aqui na ocasião.
E este tipo de pensamento é extremamente pernicioso. Há quem acredite que um planeta enorme, chamado Nibiru ou Planeta X, está prestes a se chocar com a Terra. Interessante é que nossos telescópios nada conseguem observar. Mas também, quem foi que espalhou este prenúncio dos fins dos tempos? Nancy Lieder, uma lunática que dizia receber mensagens de extraterrestres através de um implante no cérebro. Não sei o que é pior: ela ou quem nela acredita. Até para a NASA insistem em mandar perguntas sinceramente preocupadas sobre se realmente não existe um planeta prestes a se chocar com a Terra.
No Piauí, mais de 100 pessoas se reuniram para aguardar o fim do mundo. Ele estava marcado para ocorrer (ai… ai…) às 16:00 do dia 12 de Outubro de 2012. Há cerca de dois anos, Luis Pereira dos Santos disse que havia recebido a visita de um anjo que anunciou o fim do mundo para as 16h do dia 12 de outubro. Seus seguidores se afastaram da família, deixaram seus empregos e alguns até doaram bens que tinham. Na casa, os seguidores passavam o tempo todo fazendo orações e se alimentando de doações. Algumas pessoas moravam no local há dois anos. A polícia precisou ir ao local para evitar problemas: ”Queremos evitar que a população coloque fogo e destrua o imóvel, que era uma espécie de casa de oração dessas pessoas. Quem não acreditava no profeta, ficou revoltada com as mentiras e também pelo transtorno causado no bairro“.
Sim, eu sei, você dirá algo como: “Que besteira, como eles foram acreditar nisso?”. Se apenas 120 pessoas já deram um problema destes, imagina só quando, num surto psicótico, um pastor seguido por milhões de fieis afirmar que o fim do mundo será em um determinado dia? Tanto quanto religiosos não acreditam nos deuses das outras religiões, tampouco acreditam nas profecias e revelações dos outros. Mas se dentro da sua comunidade um líder religioso afirmar isso, a coisa muda de figura. De repente, a pessoa passa a pensar: “Agora sim, desta vez é pra valer!”.
É patético, para dizer o mínimo, ver pessoas grandes e alfabetizadas acreditando sucessivamente nos infinitos representantes e/ou profetas de algum deus na Terra! Por exemplo, em Santa Catarina temos o “Movimento Salvai Almas”, fundada em 1997 pelo aposentado Cláudio Heckert, 66 anos. Católico e pai de sete filhos, Heckert diz receber mensagens de Nossa Senhora constantemente, entre elas um alerta de que o mundo passará por uma terceira guerra mundial em maio de 2012. “Três bombas nucleares serão detonadas”, diz Arnaldo Haas, porta-voz do grupo, que garante ter respaldo bíblico para todas as previsões que chegam de Maria, mãe de Jesus, através de Heckert. O ano acabou, Heckert errou, mas tenho certeza que as sessões no templo continuarão lotadas.
Se for por falta de exemplo, no interior de São Paulo, um grupo denominado Céu de Nossa Senhora da Conceição, que se autointitula universalista – com a união de diversas crenças, inclusive o xamanismo e a utilização da bebida ayahuasca, da religião do santo daime -, vai passar 21 dias em um retiro espiritual para aguardar as mudanças planetárias em que acreditam. Foi recomendado que os participantes levassem roupas especiais para câmara fria (usada em frigoríficos), pois para eles, a Terra pode ficar na escuridão por três dias e, assim, esfriar mais que o normal. Há a estimativa de que os termômetros cheguem a -35° graus. Ah claro, você pode comprar o kit por R$ 220.
Além das roupas, eles farão uma alimentação especial, denominada vegetarianismo simbiótico, em que só é permitido comer alimentos que “não morrem ao ser retirados da natureza”, como as frutas e alguns legumes. É preciso pagar uma taxa de R$ 480 para participar e levar alimentos, claro. Se você não é um membro, provavelmente você não passou pelo curso do Viver de Luz Consorciado ao Vegetarianismo Simbiótico (ativação do DNA). Fique tranquilo: haverá um intensivo, já que isso lhe trará vantagens para o período de tribulação.
Poxa, sou apenas eu quem enxerga a loucura, a insanidade deste tipo de gente? Destas atitudes? Destas aglomerações de ingênuos em torno de um louco (ou muito, muito esperto)? Espanta ver como as pessoas são, até certo ponto, ansiosas, desejosas pelo fim do mundo! Todos querem ver meteoros, maremotos, vulcões, mortes, destruição, caos… como se depois disso tudo fosse ficar bem! Não ficará, meus caros, não ficará enquanto houver humanidade, já lhes adianto. De qualquer forma, parece que todos aguardam o cataclismo final. E também no caso dos loucos do interior de São Paulo, no dia 22 eles seguirão firmes em sua crença. Adiarão o fim do mundo para alguma outra data próxima e farão tudo de novo, quantas vezes forem necessárias, até morrerem de velhice sentindo-se os maiores otários da humanidade. Quiçá, sequer no leito de morte reconhecerão que eles estiveram e continuam enganados pela própria fé, ludibriados pela própria ingenuidade e ignorância.
Claro que eventos cósmicos são fontes de preocupação. Rotineiramente, sempre que uma grande tempestade solar ocorre, agências governamentais enviam alertas para aviões e outras estações para que se preparem para um eventual distúrbio nas coordenadas GPS e outros sistemas de telecomunicações.
Segundo cientistas da Nasa e de outras instituições, que recentemente se reuniram em Washington para debater a questão, em 2013 o astro vai entrar num ciclo de alta atividade, o que aumenta a probabilidade de erupções solares. Essas erupções liberam muita energia. E, quando essa energia chega à Terra, provoca uma tempestade eletromagnética – que literalmente frita tudo o que tiver um circuito elétrico dentro. Celulares e satélites pifam, os meios de transporte param, a rede de energia dá curto-circuito e logo começa a faltar água e comida. Os cientistas não sabem exatamente quando essa tempestade virá, ou qual sua força. Mas dizem que há motivo para preocupação.
“O Sol está despertando de um sono profundo. E nossa sociedade é muito vulnerável a tempestades solares”, diz o físico Richard Fisher, da Nasa. Elas já aconteceram antes. Em 1859, uma tempestade do tipo queimou as linhas de telégrafo na Europa e nos EUA. Hoje, o efeito seria muito pior. Um relatório assinado por cientistas de 17 universidades diz que a humanidade levaria até 10 anos para se recuperar de um grande evento do tipo. A solução é desligar tudo o que for elétrico antes da tempestade. Os EUA têm um satélite capaz de detectar a onda com um dia de antecedência – em tese, tempo suficiente para que as redes de energia do mundo sejam desconectadas.
Ou seja, podemos ter um pouco de dor de cabeça no futuro próximo, mas isso está longe de ser o fim do mundo. Você pode fugir para as montanhas ou seguir sua vida e usufruir o máximo que você pode dela.










Eduardo, não é só você quem "enxerga a loucura, a insanidade deste tipo de gente?",não! Te garanto que, muita gente(inclusive, eu!), não consegue entender esse comportamento "irracional" dos seres humanos…! Se bem que, religiões, que tiveram início há mais de dois mil anos atrás, numa região,absolutamente cheia de conflitos que perduram até os dias de hoje,conseguem arrebanhar milhões de pessoas ao redor do mundo???? O que esperar mais das pessoas,né mesmo?
Eduardo, se o mundo efetivamente terminar, por favor, escreva algo sobre o tema. Ironia é pouco.