Seita evangélica promove virgindade como compromisso de honra entre pais e filhas

 

Uma tradição contra a liberdade sexual

Há pouco tempo, falei sobre a questão da virgindade antes do casamento por motivos religiosos. Para minha surpresa, fico sabendo de uma seita que celebra um pacto entre pais e (a virgindade das) filhas como sendo um pacto de honra. Triste, já que algumas destas filhas chegam a ter apenas 4 anos de idade. O nome da seita é “Father Daughter Purity Ball” e eles usam o enorme pode psicológico que um pai exerce sobre sua filha para destruírem um futuro de escolhas livres e responsáveis de uma inocente criança.

Alguém, por favor, me explique que desespero todo é esse sobre a vida sexual dos filhos? Afinal, será que o pai explica para a filha de 4 anos que ela não poderá fazer sexo quando for moça e estiver física e mentalmente apta a fazê-lo? Mesmo que explicasse (4 anos!) ela não entenderia. Assim sendo, tal ato soa uma tremenda canalhice. Faz-se um pacto com a filha sobre algo do qual ela desconhece completamente. O campo de batalha de uma enorme guerra psicológica entre pai e filha começa a ser preparado, desnecessariamente, com 10 anos ou mais de antecedência! E, no futuro, cobra-se isso dela como se ela fosse a mesma pessoa que era quando bebê. Pais possessivos e ciumentos desesperados em salvar a vagina de suas filhas de algo para o qual foram desenhadas pela evolução para desempenhar: sexo.

Será melhor lutar por uma sociedade cada vez mais hipócrita no aspecto sexual, ou deixar de lado esta batalha perdida (desde o começo) e investir de vez em conscientização sexual? Afinal, se uma garota de 13 anos decidir fazer sexo, que seja de uma maneira responsável, certo? Ou é preferível viver um mundo de aparências e arriscar uma gravidez ou doença indesejável? Colocam nos ombros de uma criança um peso que ela sequer entender porque precisa suportar. Violentam a liberdade que a mulher deveria ter com o próprio corpo! Assassinam, com anos de antecedência, o livre-arbítrio (“presente” dos deuses, assim dizem os crentes) de uma criança assim que ela sai das fraldas. Afinal, que mundo doentio, psicótico é esse que alguns planejam para suas famílias?

Na revista Times fizeram uma interessante reportagem a respeito do tema. Lá eles informam que há mais de 4000 (quatro mil) eventos deste tipo anualmente pelos EUA. E aqui há de se concordar com a visão prática e ponderada dos críticos. Eles afirmam que a maioria destas crianças que juraram guardar sua virgindade farão sexo antes do casamento sim (alguém duvida?). O problema é que elas tendem a usar menos métodos contraceptivos ou de prevenção de DST’s em relação a outras pessoas, já que isso envolveria o planejamento de algo que elas juraram não fazer. Pior ainda será o embate psicológico entre pai e filha quando chegar esta fase da vida.

Isso nos desperta para o fato de que coisa semelhante deve estar sendo realizada aqui perto de nós, neste enorme Brasil cristão. Há, neste momento, garotas sendo espancadas por pais (algumas espancadas até a morte apenas por namorar) que querem suas filhas no caminho da retidão sexual. Esta coerção física e psicológica pela virgindade, uma idéia fundamentada sobre a religião, traz desgraça, violência e morte. A vida sexual é curta demais para ser adiada desnecessariamente. Cada um deveria ter a liberdade de escolher com quem e quando fazer. Precisamos lhes dar instrução para que o pratiquem de forma segura e responsável e aí deveria acaba nossa ingerência na vida sexual alheia.

Sexo não é sinônimo de depravação, tampouco de imoralidade. Sexo também é amor, compromisso, carinho, diversão. As pessoas o praticam e levam vidas saudáveis, felizes, equilibradas. Mas parece que algumas pessoas não consideraram este lado. Preferem controlar, brigar e bater em outrem por uma questão de foro estritamente íntimo. Há realmente algum ponto positivo nesta moralidade religiosa vazia? Eu acho que não…

O ritual

A seita evangélica a favor da virgindade até o casamento já marca presença em pelo menos 17 países. O Father Daughter Purity Ball tem como objetivo unir pais e filhas com o propósito de mantê-las sexualmente puras – o compromisso é firmado em uma festa de gala diante de seus convidados. Diferente das demais seitas criadas, esta é muito bem recebida pelas igrejas e até por celebridades.

Um de seus criadores, Randy Wilson, tem comparecido em diversos meios de mídia dos Estados Unidos para divulgar as idéias que não apenas são relacionadas com um retorno aos princípios morais, mas também a princípios bíblicos. Sua família é adepta do Purity Ball e serve como um exemplo de “família perfeita” que muitos desejam ter.

A cerimônia que firma o compromisso entre pais e filhas também visa abençoar as filhas, que são consideradas “pequenas princesas”. Em um baile de gala cheio de simbolismos, as filhas recebem os conhecidos “anéis de pureza” e assinam documentos. O pai é colocado como o guardião e protetor de suas filhas. As filhas, por sua vez, colocam rosas brancas as pés de uma cruz, marcando seu comprometimento.

Responsabilidade Mútua

A responsabilidade que é firmada no baile não é direcionada a apenas um dos lados da relação pai-filha. O pai auxiliará e promoverá em tudo o que for possível para que a sua filha permaneça virgem até o casamento. Contudo, ele também deverá manter uma conduta exemplar como pai, marido e homem dentro da sociedade. Tudo isto para gerar na filha o desejo de ter um homem tão honrado quanto o pai.

A família tem de se comprometer a ser um referencial – um porto para que a jovem mantenha o seu compromisso até o fim. E o pai é quem deve manter isso firme.

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